PATO BRANCO: O CENTRO DO CICLO DA MADEIRA

A origem de Pato Branco está na Colônia de Bom Retiro, criada em 1918 pelo Governo do Paraná, no Sudoeste do Estado, uma antiga fazenda do mesmo nome, próxima do rio Chopin, destinada a acolher os vencidos e desalojados da região do Contestado, devido a nova divisa dos dois Estados e que servia também de valhacouto dos foragidos da Justiça, somados à pouca população local de safristas e colhedores de erva-mate. A colônia virou município em 1951, pela Lei n. 790, do governador Munhoz da Rocha, cujo topônimo passou de Bom Retiro e Villa Nova, para Pato Branco, nome tirado do rio do mesmo nome, há 15 quilômetros da sede, além do endereçamento adotado habitualmente nas mensagens do posto telegráfico local.

Bom Retiro era então um imenso pinhal. Uma área de intenso domínio da Araucária augustifolia. Numa extensão a outra era só pinheiro. Exemplares enormes, ocupando toda o território. Só deixava clareiras nos terrenos de banhado.  Estima-se que havia nesse tempo mais de 7 milhões de exemplares, representando uma das maiores reservas naturais de matéria prima do Brasil, mais da metade “pinheiro de serraria”, de 60 cm. de diâmetro.

A princípio, nos anos 30, ainda na fase cabocla de ocupação o pinheiro era desdenhado. Os naturais da terra dedicavam-se ao criatório e à lavoura de manutenção, pois o pinheiro era tido por sinal de terra fraca. Só servia para tirar tábua lascada, tabuinha do telhado das casas e ripas de cerca.

A primeira exploração da floresta brasileira em notícia oficial foi a da concessão a Fernando de Noronha do arrendamento do pau-brasil, marcando aí o início de sua devastação histórica, que se estendeu da extração indiscriminada da árvore símbolo nacional, até a mata atlântica, presente em 17 Estados da Federação, mas hoje reduzida a pouco mais de 8,5%% de sua abrangência original, sob proteção oficial.

No Paraná a exploração da madeira começou no litoral com a extração do cedro, da peroba e da canela-preta, quando, em 1871, os irmãos Rebouças instalaram a Companhia Florestal Paranaense, que, durou pouco por se ressentir da concorrência do pinho de Riga, importado, e das dificuldades do escoamento da madeira para os portos.

Porém, com a ocupação maior do território e seu povoamento, somados à forte corrente imigratória dos fins do século XIX, mais a retificação da estrada da Graciosa e a inauguração da ligação ferroviária do litoral, incluindo a Guerra Mundial de 14 (que vedou o comércio com o exterior), a imagem dessa imensa floresta compacta de pinheiros, despertou, certamente, nos recém vindos, aquele deslumbramento ou a visão delirante que Wachowicz viu nos olhos do imigrante e no sonho de todos eles da oportunidade da conquista de uma riqueza imensa e fácil de ser alcançada.

Foi então que veio aí o serrador, sejam os migrantes do Rio Grande do Sul ou Santa Catarina que, a partir dos meados da década de 30, à mão ou com instrumentos rústicos de corte, como a serra circular, e, na sucessão a adoção da serra-fita ou ainda de melhores quadros tiraram maior aproveitamento da serragem da madeira. Rapidamente esse panorama natural ganhou cenário industrial, pois, no período de maior fluxo de extração do pinheiro, entre 1940 a 70, havia no perímetro urbano e suburbano de Pato Branco cerca de doze serrarias e laminadoras e 114 em todo o município.

E assim esse caminho foi feito no curto espaço de vinte anos, subtraindo a riqueza que a natureza levou milhares  de anos para acumular.

Porém, em 1930 a madeira liderava nossa pauta de exportações e sua economia superava a da erva mate e do pastoreio, mas seguia levada de forma desordenada e às soltas, tanto pelo espírito predador do madeireiro, como pela incúria oficial e a própria inépcia do caboclo.  O Instituto Nacional do Pinho só foi criado em 1941, seu Regulamento saiu apenas em 1946. Além disso, a fiscalização do corte e o reflorestamento das chamadas

“Florestas de rendimento” em dezembro de 1949. A partir da década de 1960 (50 após o início da exploração da nossa madeira), o

Houve surtos maiores de exportação do pinheiro, como em 1934, provocado pelo espírito de guerra que alimentava as potências principais da Europa. Assim, também, depois da 2ª guerra, a madeira voltou a atrair maior demanda e a cobrar preços altos, para servir à reconstrução da Europa de pós-guerra. Enfim, para Reindo Maack, na década de 1960 a floresta de araucária já havia esgotado todo seu potencial produtivo.

Em números de estimativa, o Ciclo da Madeira da região teria perdido 14 milhões de pinheiros e só em Pato Branco, mais de 7 milhões deles que, a cálculo aproximado, somavam mais de 6,5 bilhões de dólares.

Mesmo assim, despojada de sua maior riqueza e lamentando a perda de território, Pato Branco, sem perder, porém, o tempero do seu saudosismo sentimental, já refez seu patrimônio econômico e restabeleceu sua prosperidade, sem traumas, através do que chama de pluralismo econômico, que inclui atividades herdadas de administração e industrialização da madeira.

Convém lembrar, porém, que Pato Branco guarda a memória de uma saga histórica, da vida social e política do nosso  país,  que remonta à sua origem como abrigo dos despojados da terra e fugitivos da lei, bem como, esse caminho, passou pela reivindicação de ser território argentino, na famosa “Questão de Palmas”, onde se viu até fumos de guerra, para seguir em direção de sua exclusão do território paranaense, para compor o Iguaçu, culminando  com a revolta do colonos e a disputa pelo domínio  da terra.

Na verdade Pato Branco é rica de historiadores (Hernógenes Lazier, Sittilo Voltolini, Iria Zanoni Rocha, etc.), embora reclame outros mais, devido o tamanho do seu painel, mas, além disso, o terreno está pronto para enriquecê-lo ainda mais, com a moldura de uma  literatura regional que, como das outras regiões tradicionais,  complete esse quadro, reconstituindo o perfil  político e humano-social de uma sociedade que ela construiu à força de sua coragem  e confiança no destino do nosso país.

E, por que não?

Afinal, a história humana é uma planta de todas as sementes…

Acadêmico Rui Cavallin Pinto

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