Por quê uma história do Paraná?

A preocupação com a História do Paraná nos remete, por primeiro, ao texto que o jovem Brasil Pinheiro Machado fez publicar na revista A Ordem, do Rio de Janeiro, em 1930, sentenciando que o Paraná não tinha nenhum traço físico ou humano que permitisse distingui-lo dos demais Estados da Federação. Éramos um Estado incaracterístico e sem relevo humano.  Sua História carecia de vigor e se resumia à ocupação anônima da terra e sua colonização pela imigração. Nenhum homem de Estado ou de letras, que representasse nossa presença na nacionalidade. Diante disso, reagiram Bento Munhoz e Andrade Muricy atribuindo o mau juízo à imaturidade e à desinformação do jovem coestaduano.  Pinheiro Machado, porém, haveria de se redimir do perjúrio, para se converter depois em um dos mais destacados homens  públicos do seu tempo, tanto no governo do Estado como na cátedra de História, na qual fez gravar seu nome como um dos mais devotados e qualificados  historiadores do Paraná. O advento da República, e a conquista da autonomia dos Estados da nova Federação; acrescendo-se a riqueza que o mate produzia, além da presença renovadora de correntes migratórias provindas de fora e a confiança no progresso que o novo regime prometia; todos estes ingredientes somados iriam servir para compor uma visão identitária e ufanista do nosso Estado, da  qual seria mensageiro o intelectual e historiador Romário Martins com seu ideário paranista, um neologismo atribuído a Domingos Nascimento, que Romário se incumbiu de divulgá-lo, por considerar mais sonoro e representativo do sentimento regional  do orgulho nativista e da confiança no destino do nosso do Estado,  irmanando paranaenses e afeiçoados a ele. E é nessa quadra que aparece então a História do Paraná de Romário Martins, editada em 1899 e reeditada em 1937e 53.  Obra que inaugura a história regional do Paraná e o nascimento do movimento paranista.  Desde o primeiro ano foi documento oficial de ensino escolar da história paranaense, adotado como bibliografia ou obra de referência para quem faz ou se dispõe a conhecer nosso passado. Foi recebida como obra inauguradora, mas abrangente, registrando os aspectos principais do espaço físico e as vicissitudes da ocupação da terra e formação histórico-social do seu povo. Com o tempo, porém, sofreu adequações  como a periodização econômica dos seus ciclos de exportação. Apesar de caráter pioneiro e de representar um rico inventário de nossa história, traz também o cunho de obra de circunstância, razão que recomenda que não se perca de vista seu contexto histórico. O momento foi o de criar um sentimento comum de pertencimento e elação da terra e seu povo, visando a construção de uma identidade paranaense e tentar criar  uma expressão própria de nossa vida cultural, social e política. Daí porque se apontam traços de hipervalorização da nossa história ou divergências que reclamam reavaliação.  Rocha Pombo foi nosso maior historiador e o mais profícuo e multifário de sua geração. Publicou o “Paraná no  4º Centenário”, em 1900,  e “História do Paraná” em 1922, mas, para David Carneiro, se     mostrou historiador local medíocre e pesquisador quase nulo, incapaz de projetar para o pais a historia e o valor de sua província natal. Sebastião Paraná fez obra didática sobre a geografia das províncias brasileiras e países da América e da Europa. Ermelino de Leão foi dicionarista histórico e geográfico, com trabalho de grande monta, embora conte com obras avulsas sobre episódios do nosso passado. Francisco Negrão foi genealogista e extremoso pesquisador, deixou obra valiosa de referência e consulta sobre a genealogia paranaense e episódios da nossa história. Nenhum deles, porém, deixou obra sistemática e consistente sobre a História do Paraná, que pudesse servir ao ensino escolar ou, mais, capaz de oferecer um  painel mais amplo e denso de nossa terra e da história de sua gente. A ”História do Paraná” de Ruy Wachowicz cumpriu em grande parte esse papel. A obra deixa, entretanto,  pontos abertos e de questionamentos que vão do papel das reduções jesuíticas à natureza da submissão imposta ao indígena. Põe em juízo o proveito da catequese com a convivência do índio e o  branco, além da participação do negro numa sociedade declaradamente  europeizante. Alega-se, ainda, que o texto sobre o Norte Novo e Novíssimo reclama um tratamento maior que o de um único capítulo, tanto quanto a Companhia de Terras Norte do Paraná e a economia cafeeira demandam mais espaço. A “História do Paraná”, de Lucinéia Steca e Mariléia Flore, embora mais nova,  vai só até a década de 50. Na verdade, perdemos nossos melhores historiadores: David Carneiro (1990), Brasil Pinheiro Machado (1997), Luiz Carlos Tourinhoi (1998), Ruy Wachowicz (2000), Cecília Maria Westphalen (2004), Altiva Balhana (2009), Edilberto Trevisan (2010). A Constituição Estadual de  1947 até tentou suprir essa falta. Pelo art. 16, de suas  Disposições Transitórias atribuiu ao Instituto Histórico e Geográfico do Paraná  o encargo de elaborar a História do Paraná, que deveria estar concluída até 1953, para as comemorações do centenário de nossa emancipação. A incumbência nunca foi atendida. Porém, anos depois, em 1º de abril de 1951, perto das comemorações, essa comissão oficial foi lembrada em reunião de diretoria do Instituto, ocasião em que, caído em brios, o prof. Loureiro Fernandes renovou o compromisso, em nome do Instituto, propondo a realização de um trabalho ainda mais amplo: fazer a história convencional, e também a política, econômica, social e cultural do  Paraná. Entretanto, mais uma vez, nada se fez ou voltou a ser prometido. O projeto morreu ai, e, desde então, não temos nenhum outro compêndio ou volume de maior porte que substituísse os nossos antigos manuais; ou  que fizesse despertar em algum historiador o ânimo de cumprir o comando constitucional. Ora, a história está à raiz da nacionalidade. Ela é que lhe dá substância e elabora o perfil verdadeiro de sua identidade. É fator de integração social e fusão de sentimentos comuns. Mas a história também envelhece e deve ser rejuvenescida a cada geração, sob pena de virar cartapácio. Vejo que a alternativa de agora será, talvez, a de tentar reviver o sonho do paranismo de Romário Martins, hoje no oblívio. Procurar acordar aquele mesmo ardor nativo que empolgou seu pregador e toda sua geração genuína de intelectuais e artistas paranaenses. E uma de suas idéias-força foi a História, que haveria de ser vigorosa e revelar a grandeza da terra, a riqueza do seu passado e o vigor dos seus filhos. Mas Romário não confiou apenas nos dons da palavra e da pena para realizar seu sonho de inventar um Paraná – paraíso: mobilizou recursos do Estado, que se converteram em auxílio para a publicação da revista do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná (de sua fundação, também), bem como fez estender iguais auxílios à imprensa diária para a divulgação e propaganda do Estado. Fundou o Centro de Turismo e Propaganda do Paraná e presidiu o Conselho Superior de Defesa do Patrimônio Cultural.  Escreveu livros e atuou em toda a imprensa local, sempre levando à frente a idéia do paranismo e a construção da nossa identidade paranaense. Esse foi certamente um dos momentos mais belos e ricos da nossa história regional e da mais vigorosa consciência nativista. Pudesse ele voltar a florescer novamente… e seria a inspiração que falta para esses tempos magros, de pouca confiança e fé na nossa própria imagem e sua história.

Rui Cavallin Pinto

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.

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