QUEM SÃO OS INTELECTUAIS DE HOJE?

O dicionário Houaiss costuma trazer, além do significado da palavra, sua datação histórica.  Assim, quando menciona o adjetivo intelectual e seu significado semântico, traz junto a data em que ele passou a ser empregado:  no caso no século XIV.  Ora, é sabido que até o fim da Idade Média, o mais que havia de vida cultural era o trabalho dos monges, no interior dos conventos e das poucas universidades que então existiam, todos ocupados na interpretação silenciosa dos textos sagrados da Igreja e do corpus aristotélico. Não havia até então intelectuais. Eram todos doutores da Igreja. A devoção religiosa ocupava todos os espíritos e preenchia os espaços desse mundo sagrado e silencioso.

Com o advento do Humanismo e do Renascimento, porém, o conhecimento deixou de ser privilégio dos teólogos e monges e passou a ser também objeto do interesse de laicos e leigos. Na França, Richelieu criou os acadêmicos, quando reuniu os homens de letras do país na Academia de Letras, fundada em 1634, com o fito de elaborar o Dicionário da Língua Francesa, mas que, discretamente, ocultava a intenção de manter em vigilância seus gens de lettres de suas inquietações.  Eram todos, até então, filósofos e eruditos, mantendo uma visão comum do mundo e do destino humano. E assim se conservavam, mesmo quando Colbert criou, em 1663, a Academia de Inscrições e Belas Letras e, anos depois (1666), a Academia Real de Ciência, reunindo como sempre os estudiosos das letras ao lado daqueles da ciência, em terreno comum, sem reserva de espaço ou de interesse que fosse exclusivo. E assim eles assumiram a liderança do conhecimento: das letras e das ciências. Eram os arautos da sabedoria. Com o tempo, porém, o campo se abriu e os das letras se apartaram dos das ciências e se assenhorearam do domínio da linguagem e do pensamento global. É o tempo então do intelectual oráculo, depositário dos valores espirituais e universais do tempo.

Mas, o”intelectual” propriamente dito tem data própria de nascimento e definição, registradas pelos que versaram o tema. Está nos anais da História e corresponde ao ano de 1898, da decisão que reabilitou o capitão francês Alfred Dreyfus do processo que o condenara por alta traição e ao degredo perpétuo na ilha do Diabo. Sua condenação suscitou grande abalo na opinião francesa e provocou toda ordem de reação, até de pilhagem às lojas dos judeus. Foi uma revolta geral, que dividiu a opinião pública entre dreyfusards, pela revisão da condenação e os antidreyfusards, pela sua confirmação.  Os dreysusards foram então apelidados pejorativamente de intelectuais.  Daí a palavra.  Mas, além das manifestações locais, a fraude judicial recrutou também protestos no estrangeiro. Assim as contestações de Poincaré, Clemenceau, Charles Maurra, ao lado de Sara Bernhardt, Mark Twain e até o nosso Eça de Queiroz.

Anatole France escreveu o “Anel de Ametista” para reproduzir a subversão que então sacudiu o país.  Emile Zola, posto à frente da revisão com o seu “J’Accuse”, chegou a ser condenado a um ano de prisão e à multa de 3 mil francos. Exilou-se na Inglaterra.

É dessa quadra o adjetivo “intelectual”. Ele perde seu tom professoral e profético do sábio tradicional e guardião dos valores sagrados e superiores da sociedade.  Já não está mais a serviço dos universais e do anúncio revelador da finalidade última da vida. O conhecimento se democratiza, se generaliza, se laiciza.  Já não é mais o todo de antes, como se representasse uma consciência coletiva, mas uma diversidade, que nos surpreende no curso do tempo.  Agora os pés se assentam sobre a terra e têm data de compartilhamento, vivendo as experiências de todos e as paixões do dia a dia. Elisabeth Badiner disse isso em “As paixões intelectuais”, sobre o desejo de glória e vontade de poder que afetam os intelectuais e os atuais meios de comunicação ainda favorecem.

Mas, além disso, o militante comunista, filósofo e cientista social Antonio Gramsci distingue nos seus Cadernos do Cárcere (1926-1937), duas categorias de intelectuais numa sociedade de classes: de um lado os orgânicos, vinculados à sua classe de origem, atuando como porta-vozes da ideologia e da preponderância de sua classe.  Do outro, os tradicionais, constituídos geralmente de membros da Igreja, das Forças Armadas e de instituições universitárias. Os orgânicos devem promover a defesa das classes subalternas da sociedade (operários), para vencer a hegemonia burguesa através da implantação do modelo de uma nova ideologia destinada à realização da praxis revolucionária.

Na verdade, como conclui Helenice Rodrigues da Silva, mineira de Caeté (Fragmentos da História Intelectual), com doutorado e pós-doutorado na França, atual professora de História Contemporânea da UFPR, embora estimulante, a história intelectual é ainda bastante frágil e impreca, razão porque devemos nos conter dentro de certos limites e precauções naturais, que reduzem nossos questionamentos e poder tentar alcançar a abertura de algumas possíveis revelações.

 

Acadêmico Rui Cavallin Pinto