Requiem dos Livros

Para o americano Gore Vidal a maior serventia de uma  casa era guardar livros. Ora, fiz isso por muito tempo e acabei acumulando centenas e até milhares deles. Preenchi minha biblioteca, minhas  estantes, prateleiras e gavetas da casa. Faziam parte do dia-a-dia do meu trabalho e preenchiam meu tempo de lazer. Com os anos passando cheguei, porém,  à aposentadoria, e a maior parte deles ficou sem utilidade. Eram livros jurídicos: legislação, doutrina e jurisprudência. Cada vez menos úteis, – e então decidi doá-los; para abrir espaço para outros interesses.

Tomada essa decisão parti à procura de donatários: primeiro procurei advogados recém-formados, depois Faculdade de Direito; busquei as mais novas (hoje tem tantas…),  quando ainda se instalavam. Fazia então a oferta de 800 ou 1.000 deles, reunidos em coleções, acumuladas no tempo. Eram nomes famosos ou obras clássicas, que serviram para minha formação.

Para minha surpresa, entretanto, todos me descartaram, polidamente, é claro.  Dispensavam a generosidade. Alegavam que não dispunham de espaço próprio ou que o objetivo principal das Faculdades, no momento, era o de completar e atualizar suas bibliotecas e orientar a formação dos seus alunos na direção de obras  e autores contemporâneos,  atendendo a tendência atual e o interesse prático dominante hoje na formação do profissional. Queriam livros compatíveis com a doutrina e a legislação vigentes.  A demanda que a Faculdade procurava atender era  formar operadores do Direito e  não juristas.

Na verdade, o mundo dos interesses de hoje, está voltado para  respostas prontas e imediatas, como aquelas fornecidas pelos recursos eletrônicos da internet e dos eboocks, que acumulam  arquivos imensos sobre o conhecimento humano e permitem resgatá-los de pronto.  É como se diz  hoje em dia: o exercício da  advocacia reclama formação moderna, de respostas concretas e  imediatas, fáceis  de colher e demonstrar.

Assim, já não existe, como no passado, a figura do pesquisador  solitário e paciente, confinado às meias sombras das bibliotecas, entre montanhas de livros e velhos arquivos, à procura das verdades definitivas, que ele agora pode  procurar, limpas e simples, com uns poucos toques no teclado do seu computador.

Mas, a bem de ver,  essas facilidades têm seu preço. Já na década de 30 Henry Benazet, famoso advogado francês, denunciava que os plaiders modernos, quando se apresentavam às Cortes de Paris, o que demonstravam era uma triste penúria cultural e carente formação jurídica. Sem falar da pobreza da língua e da falta de estilo da palavra. Era os efeito do pouco cuidado com o estudo e da falta de hábito da leitura. Trabalhavam com simples anotações,  apontamentos ou coletâneas parciais de doutrina  e jurisprudência, como fazem hoje nossos contemporâneos com seus extratos e fragmentos tirados do computador. Um cenário muito diferente daquele que fez as glórias da tribuna jurídica francesa.

E  há, ainda, outra ameaça direta sobre o futuro dos livros, como vemos hoje: a guerra eletrônica. Com o desenvolvimento da informática e o aparecimento do Smartboocks, Rocketboocks Softboocks e outras tantas configurações, surge a indagação natural de saber se,  diante dessas transformações de forma e uso, o livro tradicional ainda vai se manter na  forma que o conhecemos, com suporte no  papel?

Mas esta é, afinal, uma visão in fieri, que só o futuro nos dará resposta definitiva.

Outros inimigos históricos e implacáveis do livro ainda existem e remontam ao tempo em que eram feitos de argila, há 6 milênios de anos atrás.  O mais devastador deles é  certamente o da guerra, esse exercício coletivo e metódico de destruição recíproca que  o homem pratica desde suas origens.  Elas são responsáveis pela incineração de uma incalculável riqueza de livros, documentos e obras de arte de todo gênero,  testemunhas da memória da humanidade e do gênio criador do homem. Guerras fomentadas pela ambição  de poder,  pela ânsia de domínio, pela covardia do medo e todas as outras múltiplas formas de ódio, em que se incluem o religioso, o étnico, o ideológico, e  tantos mais.

E  há ainda o desamor à leitura, provocado  pelas seduções e os prazeres da vida moderna. Até recentemente  as estatísticas acusavam que o brasileiro lê de 2 a 2,5 livros por ano, enquanto o americano lê  7, o japonês 20 e o argentino 22. Os nossos alegam  escassez de tempo; o outros se queixam de cansaço ou, ainda, que os preços são muito altos.

Essas, afinal e em abreviado, as razões do descarte do livro nos dias de hoje, que,  opitulante deo, não haverão  de prevalecer.  O livro será sempre uma manifestação pessoal da inteligência criativa do homem: pessoal, livre, independente.  Ele é o guarda do passado e o núncio do futuro.  E  resiste a todas as formas de reduzi-lo,  porque  se sobrepõe às tentativas de confiná-lo aos  sistemas ou formas de disciplina geral. Ele é  forma de vida, rebelde e insubmissa.

Rui Cavallin Pinto

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.

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