Rocha Pombo e o Rio Grande do Norte

Inegavelmente, Rocha Pombo foi escritor com pendor natural para as letras. Foi dono de uma escrita espontânea, corrente e copiosa. Deixou obra multifária, que impressiona pela extensão e variedade de sua produção, com a qual percorreu diversas formas de expressão literária Foi romancista precoce, fez poesia épica e lírica; escreveu contos e obras didáticas, pedagógicas, de filologia portuguesa e tudo mais. Júlio Moreira identificou 37 de suas obras, que incluem até um dicionário de sinônimos. Mas sua consagração definitiva foi como historiador, sobretudo através de sua monumental História do Brasil prevista inicialmente em dez volumes, de 600 páginas cada um (mas, afinal, reduzida a cinco), a cuja produção dedicou 12 anos de sua vida, de 1905 a 1917, Escreveu também o Paraná do Centenário, História de São Paulo e História da América, com a qual ganhou prêmio nacional, em concurso promovido pelo Conselho Superior de Instrução Pública. E, entre outras obras, ainda resta mencionar sua História do Rio Grande do Norte, um grosso volume de 500 páginas, em que reconstrói todo cenário histórico e o quadro geográfico da região, e a formação social e política da terra potiguar. Confesso que a princípio estranhei fosse Rocha Pombo buscar tão longe a motivação para um novo trabalho histórico de suas proporções. Além disso a obra assumia caráter inédito e pioneiro, ficando na dependência de fontes bibliográficas e locais difíceis de reunir à distância. Além do mais, a esse tempo Rocha Pombo nem conhecia o norte do Brasil. Na verdade, tudo começou quando, em 1917, após ter dado por concluída sua História do Brasil, ele se dispôs a empreender uma viagem por todo o norte do país. Viagem que fez por mar na maior parte, desde o Rio de Janeiro até alcançar Manaus, durante mais de 4 meses, visitando todas as capitais do litoral..Assim, esteve em Vitória, no Espírito Santo, Salvador da Bahia, até alcançar Natal, por terra, passando por Aracaju, Maceió e a Paraíba. Por todas essas cidades permaneceu em média uma semana e foi objeto de carinhosa acolhida das sociedades locais e de tratamento oficioso das autoridades.. Homem simples e de aparência humilde, Rocha Pombo foi cercado de admiração e simpatia geral, pois, afinal, já era então um nome nacional. No caso, sua presença em Natal durou apenas 7 dias: de 28 de setembro a 4 de outubro, ocasião em que fez visita às instituições locais e conheceu os atrativos da cidade. Foi recepcionado no Instituto Histórico e por ocasião de sua partida recebeu o diploma de sócio honorário da casa, em solenidade singela, mas assinalada por discurso e champanhe. Durante sua presença em Natal conviveu com a intelectualidade mais representativa do Estado, como o governador Ferreira Chaves, historiadores como Augusto Tavares de Lyra, Desembargador Vicente Lemos, Dr. Nestor Lima, Oscar Brandão, o professor Jerônimo Gueiros e outros tantos. E foi nessa oportunidade que surgiu a idéia do livro. O governador indagou de Rocha Pombo se aceitava a incumbência de escrever a história do Rio Grande do Norte. Queria comemorar o centenário da independência, cuja data nacional se aproximava, com a publicação da história inédita do seu Estado. E, como era do seu natural, Rocha Pombo aceitou; e com essa incumbência oficial se despediu entre homenagens e seguiu no vapor Acre, com destino ao Ceará, a fim de completar uma viagem que ainda o levaria ao Maranhão, Belém e Manaus, encerrando então o périplo. De volta ao Rio, Rocha Pombo entregou-se à obra assumida, servindo-se da bibliografia que pode reunir e das contribuições que lhe prestaram historiadores locais. Mas, mais assiduamente, se serviu do aconselhamento de Augusto Tavares de Lyra. Getúlio Vargas em discurso no Catete, ainda iria consagrar o norte-rio-grandense Tavares de Lyra como uma “Relíquia Nacional”. Nascido em Macaíba em 1872, Augusto Tavares de Lyra formou-se advogado, mas ganhou notoriedade sobretudo como político e historiador de sua terra. Foi governador do Estado, deputado e senador e levado ao Ministério da Justiça pelo conselheiro Afonso Celso e da Viação de Obras Públicas, pelo presidente Venceslau Brás. Ao tempo do convite a Rocha Pombo, alega Tavares de Lyra que se propunha a escrever a história completa do Rio Grande do Norte, em 5 volumes. A oferta do governador ressoou, assim, nas rodas políticas e na opinião do próprio Tavares de Lyra, como uma tentativa de excluí-lo da “benemerência” de se tornar o primeiro historiador da terra potiguara. Independente disso, porém, Tavares de Lyra deu constante assistência à obra de Rocha Pombo, durante sua elaboração. Mas não revelou que fazia obra similar. A final, os dois livros celebraram juntos o centenário da independência do Brasil, em edição comemorativa. Tavares de Lyra ainda pode presentear Rocha Pombo com o seu, agora reduzido a um único volume, mas editado primeiro, embora a pouco tempo. Nosso historiador agradeceu a oferta e felicitou seu autor, lamentando somente, com sua impenitente humildade, não tê-lo conhecido antes, para poder se servir de sua abundância para suprir seu humilde trabalho. Carlos Tavares de Lyra prefaciando a História do Rio Grande do Norte de seu pai, louva a oportunidade do povo norte-rio-grandense ter contando com a presença de Rocha Pombo em seu Estado, e credita às circunstâncias políticas locais e suas rivalidades, a oportunidade do Estado poder contar com a edição de “duas Histórias, superiormente escritas!”. Entretanto, logo depois a História de Rocha Pombo (1922), acabou esquecida e reduzida à primeira edição. Tampouco a obra de Tavares de Lyra (1921) logrou conservar seu prestígio diante dos leitores e estudiosos da historia potiguar. Nem mesmo se recorrem hoje em dia ao trabalho hercúleo, de revisão histórica, realizado por Rui Barbosa, na questão de limites com o vizinho Ceará, conhecida como “A Questão de Grossos”. E, finalmente, a “Breve Notícia” de Ferreira Nobre (1877), só conserva interesse à conta de representar trabalho pioneiro. A história hoje mais corrente é, sem dúvida, a de Luis da Câmara Cascudo (1955), pela sua amplitude cultural e visão social do autor, que ainda ostenta o título oficial de historiador de Natal e desfruta da preferência popular pelo que exibe da riqueza cultural da região. Finalmente, Rocha Pombo foi mesmo um homem humilde e generoso, mas não seriam essas mesmas “virtudes” responsáveis pelo seu lamentável esquecimento, à pretexto de que ele próprio se diminuía diante dos seus iguais, e sua frequente disponibilidade em servir,fazia estimar seu trabalho como sendo de menor monta e qualidade?

Rui Cavallin Pinto, cadeira 13

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.

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