Saudação a Carneiro Neto, pelo Acadêmico Ernani Buchmann

Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo. Senhoras e senhores, não pude resistir à tentação de iniciar esta saudação com o bordão inesquecível criado por Fiori Gigliotti, ouvido em milhares de partidas de futebol, nos estádios, nas casas e nas ruas, a partir dos anos 40 do século passado.

Quando Antonio Carlos Carneiro Neto nasceu em Wenceslau Braz, em 7 de julho de 1948, filho do então juiz de Direito, mais tarde Desembargador Armando Jorge Carneiro e de D. Josephina Basso Carneiro, aqui presente, talvez em alguma residência ali perto alguém estivesse sintonizando a Rádio Clube de Lins, com a voz de Fiori Gigliotti narrando alguma partida na noite daquela quarta-feira.

Não se sabia, por óbvio, que naquela pacata cidade do ramal do Paranapanema da estrada de ferro, chegava ao mundo um cidadão que se dedicaria ao estudo do Direito, à carreira como serventuário da Justiça, mas, acima de tudo, ao jornalismo esportivo.

Wenceslau Braz Pereira Gomes, o presidente da República que a cidade homenageia por ter autorizado a construção da ferrovia, era mineiro. O tempo em que exerceu seu mandato, entre 1914 e 1918, foi também o da 1ª Guerra Mundial. Não sabemos qual o time de seu agrado, mas me agradaria que fosse torcedor do Fluminense. É que o clube carioca foi o primeiro a merecer referência poética. Escreveu Mário Filho:

“Recitava-se o time do Fluminense de 1919 como um soneto, trará, tarará. Decassílabos perfeitos. Ouvir estrelas, de Bilac. O soneto do Fluminense, trabalhado na forma e no fundo. Depois de pronto, com Marcos, Vidal e Chico Neto; Lais, Oswaldo e Fortes; Mano, Zezé, Welfare, Machado e Bacchi. Não se podia tocar numa sílaba sem estragar tudo.”

O escritor Ruy Castro, na Folha de São Paulo, contou dia desses o violento sururu ocorrido naquele mesmo ano, envolvendo Lima Barreto, que considerava elitista o futebol, e Coelho Netto, francamente a favor. Os dois romperam como se estivessem em um Fla-Flu cultural.

Eduardo Galeano, o autor uruguaio de tanto prestígio na crítica mundial, por conta do seu clássico As Veias Abertas da América Latina, descreveu bem o ambiente do esporte no início de da saga latino-americana dos atletas pioneiros.

“Eram guerreiros formados para a batalha. As armaduras de algodão e lã cobriam todo o seu corpo, para não ofender as damas que assistiam às partidas empunhando sombrinhas de seda e agitando lenços de renda.”

O futebol já prenunciava ali sua vocação como síntese da nossa civilização. Ambiente propício para que surgisse, logo depois, Arthur Friendereich, filho de alemão com brasileira, mulato de olhos verdes e incrível capacidade de marcar gols. Gilberto Freyre afirmou, no prefácio de O Negro no Futebol Brasileiro, do já citado Mário Filho, que

“O futebol teria numa sociedade como a brasileira, em grande parte formada de elementos primitivos em sua cultura, uma importância toda especial que só agora vai sendo estudada sob critérios sociológicos ou para-sociológicos. E era natural que aqui tomasse o caráter particularmente brasileiro que tomou.”

Prossegue o Mestre de Apipucos:

“O desenvolvimento do futebol, não num esporte igual aos outros, mas numa verdadeira instituição brasileira, tornou possível a sublimação de vários daqueles elementos irracionais de nossa formação social e de cultura.”

O processo de amálgama racial que os portugueses haviam dado início no Brasil pela miscigenação, foi cimentado e calafetado pelo futebol. No seu belo livro, O Trapicheiro, Marques Rebelo já nos conta como andavam as coisas na seleção brasileira, em 1938:

“Segue hoje pelo ‘Arlanza’, a delegação de futebol ao campeonato do mundo que será realizado na França. Salvo leves injustiças, a equipe que irá é a melhor. Delegados é que há em demasia, mas isso é vício insanável, porque afinal passear no estrangeiro é coisa agradável e cultural. E a atmosfera de expectativa que começou a se criar com a partida dos nossos craques, duvido que seja benéfica. Nossa autossuficiência não permite derrotas, mas nossa inexperiência em prélios internacionais já tem sido brilhante e continuadamente posta à prova.”

De tal forma o futebol havia se transformado em esporte nacional que ao voltarem da França, com o terceiro lugar na Copa do Mundo, os jogadores foram recebidos em delírio popular ao descerem do navio ‘Almanzorra’. Zorra era o nome do navio, bem entendido.

Não era essa a opinião do Prêmio Nobel, Gabriel García Marquez, autor de diversas maravilhas na área da ficção:

“Com esta santa ignorância de que me vanglorio – entre muitas outras – em matéria de futebol, não posso menos que confessar meus sentimentos de respeito por aqueles que se instalam em uma arquibancada, desde as primeiras horas do dia e sob um sol que certamente não deve ter nada de esportivo, para esperar que 11 cavalheiros vestidos de criança se empenhem em demonstrar a outros 11 igualmente vestidos que, com as extremidades inferiores, se pode fazer, em determinadas circunstâncias, muito mais do que habitualmente se faz com a cabeça.”

Gabo tratou de chamar de loucos os que foram gritar de sincero entusiasmo nas arquibancadas, como se diante de um poema de Rilke ou um romance de Willian Faulker.

Nada disso assustou o garoto Antonio Carlos. Ele tratou de embrenhar-se pelo futebol na década de 50, em Guarapuava. Ali, no infantil do Grêmio Oeste, batendo-se contra Guarapuava, Batel e outros times locais, solidificou seu amor pelo esporte. Inteligente, curioso, queria saber tudo. São razões suficientes para que se possa dizer que Carneiro Neto é filho do Dr. Armando e de D. Josephina, mas também de Jorge Cury, Antonio Cordeiro, Edson Leite, Pedro Luiz, Fiori Gigliotti, Waldir Amaral.

Nosso personagem iria completar dez anos quando o futebol explodiu o Brasil de alegria. Vamos a Estocolmo, na Suécia, em 29 de junho de 1958, na voz de um de seus pais esportivos, o grande Edson Leite.

(a plateia ouve um gol de Pelé no jogo Brasil x Suécia, na decisão da Copa do Mundo).

Quando a família mudou-se para Ponta Grossa, o garoto precisou escolher entre Guarany e Operário. Ficou com o Guarani, rubro-negro, sina de cores que o perseguiria pelo restante da vida, ao torcer declarada e apaixonadamente pelo Atlético Paranaense, e a ter simpatia por tantos outros clubes riscados de vermelho e preto, como o italiano Milan. Nem poderia ser diferente: as origens das famílias Basso e Carneiro remontam à antiga aristocracia paranaense, torcedora do Atlético. Ao Coritiba estava ligada a burguesia surgida da imigração, com alemães, poloneses, ucranianos e italianos formando sua torcida, por isso mesmo chamada de coxa-branca. Ao Ferroviário cabiam aqueles ligados à Rede Ferroviária e à população mais simples.

Na adolescência, Carneiro já mostrava a aptidão pelos casos futebolísticos que iria contar vida afora, nas colunas dos jornais. Demonstrou sua excepcional memória em casos como este, falando do craque que seu pai não foi, publicado no livro Efabulativos do Futebol, de 2003.

“Quando se formou a primeira turma da Faculdade de Direito de Ponta Grossa, realizou-se um jogo de futebol, seguido de churrascada, entre os professores e os formandos. Meu pai era juiz e professor de Direito Civil da faculdade, convidado e escalado para jogar. Como sua intimidade com a bola não ia além das arquibancadas, aceitou assistir ao jogo e esperar pelo churrasco. Acontece que um aluno da turma que se formava, o já falecido Wallace Pina, proprietário da Rádio Difusora de Ponta Grossa, resolveu fazer com que sua emissora transmitisse a partida histórica. Para evitar maiores atropelos ao narrador, antecipou-lhe as escalações das equipes, com o nome do meu pai ao lado de Wilson Comel, Fernando Fowler, Ari Ayres de Mello e outros professores.

Na hora do jogo, convidaram o bedel da faculdade, Oscar Correia, titular do time profissional do Guarany, para substituir meu pai. Começou o jogo e o narrador transmitiu a partir dos nomes e números da escalação original. Foi uma festa bonita. Alguns dias depois, atendendo no fórum a um advogado de Castro, meu pai recebeu um elogio desconcertante: “Parabéns, doutor. Ouvi o jogo e fiquei impressionado. Não sabia que além de juiz e professor o senhor lança bolas em profundidade, dribla, bate escanteio, dá bicicleta e marca gol de cabeça.”

A família Carneiro chegou a Curitiba em meados dos anos 60, com Antonio Carlos já repórter esportivo e já Carneiro Neto. Já estavam aposentados os craques do Furacão, campeão paranaense de 1949 quase invicto: perderam de 2 x 0 para o Ferroviário, na última rodada do campeonato.

O Atlético de tantas glórias e tantas lendas, uma das quais perdemos ontem: o doutor Júlio Gomel, amigo de todos os curitibanos, ex-diretor, médico e conselheiro atleticano que torcia por dois times, Atlético e Fluminense. Resolveu morrer em um domingo, dia de Atlético x Fluminense na Arena da Baixada.

O período romântico de Guarapuava e Ponta Grossa e o mundo mais competitivo em Curitiba serviu para Carneiro Neto aprimorar suas qualidades de homem de cultura. Seguiu a máxima de Nelson Rodrigues, segundo quem “a burrice não dorme e repito: a burrice é uma eterna vigília”.

Mais que um futebolista, tornou-se um intelectual. Um colecionador de amigos e de turmas variadas. Farei uma digressão: é digna do livro Guinness dos recordes o número de grupos diferentes de amigos que ele frequenta. Há os que caminham cedo pelo Parque Barigui, os que jantam nas segundas e quartas-feiras, os que almoçam na quinta, os de Ponta Grossa e assim por diante.

No muito antigo ano de 1971, fui contratado como repórter por Ayrton Cordeiro, diretor de esportes e principal narrador da Rádio Clube Paranaense. Carneiro Neto já era então o segundo na hierarquia, em uma equipe privilegiada, por conter nomes como Luiz Augusto Xavier, Marcus Aurélio de Castro, Dias Lopes, Carlos Marassi, Jota Pedro e Wilson Brustolim.

Ao microfone, era fiel aos fatos, sem jamais esconder um certo tom de ironia na voz. Ao contrário de Nelson Rodrigues, que recriava o jogo, indiferente à realidade, Carneiro sempre tratou todos os times como iguais, embora o Atlético fosse mais igual que os outros, à moda de George Orwell.

Mas se é filho radiofônico de grandes locutores, é irmão literário de autores como os já citados Mário Filho, Nelson Rodrigues, Eduardo Galeano e Gabriel García Márquez. Incluo outros: João Saldanha, João Cabral de Melo Neto, Ruy Castro, o paraguaio Augusto Roa Bastos, autor de O Eu Supremo, o argentino Roberto Fontanarrosa, o uruguaio Mario Benedetti e o também argentino Osvaldo Soriano, autor de El penal más largo del mundo, o mais brilhante conto da literatura futebolística já escrito.

Para isso, estudou e leu o suficiente para que o professor Aroldo Murá, guardião biográfico das personalidades da vida paranaense, a ele assim se referisse, no primeiro volume dos seus Vozes do Paraná:

“Discorre sobre El Cid com o mesmo entusiasmo com que se embrenha nos episódios mais fascinantes da Segunda Grande Guerra, incansavelmente pesquisados. A ponto de ter ido in loco conhecer os espaços do desembarque aliado na Normandia. Ou visitado o submarino Arizona, em Pearl Harbour, cujo ataque detonou a reação americana. E de ter igualmente conferido, com minuciosa e redobrada atenção, o refúgio estratégico em que Churchill se abrigou no complexo de Whitehall, quatro metros abaixo da terra, em Londres, para planejar os grandes lances bélicos contra o Eixo. Ali, Carneiro conta com orgulho, viu o mapa mundi sobre escrivaninha de Churchill assinalado com os três pontos de interesse dos Aliados num eventual desembarque no estado do Paraná: a baía de Guaratuba, Paranaguá e o aeroporto Afonso Pena”.

Nosso incomparável professor Aroldo – professor de jornalismo e de humanismo – ressalta que Carneiro Neto estuda a corte de Luiz XIV ou a vida de Santo Agostinho não à busca de refinamentos, mas como exercício essencial para a profissão.

Carneiro escreveu sobre fatos, mitos e homens com seriedade e competência. Sua dedicação às memórias de Hélio Alves, antigo treinador de futebol, à época vivendo seus últimos dias em uma pensão em Curitiba, é comovente. Aceitou transformar o maço de papéis mal escritos, com histórias de uma vida vivida no futebol entre Paranaguá e Curitiba, em um relato bem concatenado, no livro O Feiticeiro do Futebol. Hélio Alves recebeu todos os direitos autorais do livro, sucesso de público em seu lançamento.

Fez o mesmo com Vinícius Coelho, ao escreverem juntos a história dos clássicos Atletiba. A noite de autógrafos foi tão concorrida que me lembro bem: ao chegar ao Passeio Público, local em que se dava o evento, fui obrigado a aguardar no outro lado da Rua Presidente Carlos Cavalcanti, no posto de gasolina ali instalado. Jamais Curitiba havia visto coisa igual.

Em 1996, escrevi a orelha do livro Paraná Clube – O Vôo Certo, escrito por ele sob encomenda do próprio clube, do que eu era, então, presidente. O livro saiu em meados do ano seguinte, às vésperas do pentacampeonato. Por aquelas páginas, desfilou sua prosa elegante, descrevendo a história dos tantos clubes que deram origem do Paraná. Darci Piana, que hoje é o nosso anfitrião, foi testemunha daquela epopeia.

Com Vinícius Coelho escrevemos a seis mãos os Casos e Acasos do Futebol Paranaense, série publicada em fascículos pela Gazeta do Povo. As reuniões de pauta e a editoria ocorriam no meu escritório, em meio ao bom humor e em acordo com o rigor histórico. Infelizmente as reuniões aconteciam pela manhã. Ou seja, sob lei seca.

Carneiro Neto chega à Academia para substituir um grande amigo, Valério Hoerner Júnior. Fomos bastante próximos, entre 2005, quando entrei nesta Casa até o início de 2012, quando ele acusou a doença que o levaria três anos mais tarde. Foi um excelente cronista das coisas da cidade, um ótimo memorialista dos fatos da PUC PR, um professor de Direito que deixou ao menos uma obra fundamental – Roma, um passeio pelo Direito nos tempos de César.

Ambos se debruçaram sobre a história do Clube Atlético Paranaense, o que mostra a afinidade entre duas personalidades marcantes, a mais jovem talhada para suceder a mais antiga. Duas gerações que viveram momentos épicos, porque o maior esporte do mundo é uma obra épica.

Nelson Rodrigues, com suas imagens, como a grã fina de narinas de cadáver ou comparando Flamengo e Fluminense aos Irmãos Karamazov ou ainda ao criar a frase definitiva – O FlaFlu nasceu 40 minutos antes do nada –,  suas metáforas, como a dos remadores de Benhur, a significar os que suavam o sangue, criou episódios homéricos insuperáveis.

O futebol é épico e poético. Bem por isso, terminarei citando o maior poeta da prosa futebolística brasileira, Armando Nogueira:

“Vivi tristezas, vivo alegrias, tenho chorado, já cantei muito, às vezes rezo vendo a bola correr na grande área. Nem mesmo os sentimentos mais subalternos da alma humana – nem deles a grande área do futebol tem me poupado o coração. Já tremi de medo, já odiei, já invejei. A paixão do futebol tem me pesado a vida de tantas emoções que já não tenho o direito de lastimar se um dia a morte me queira surpreender no instante de um gol”.

Antonio Carlos Carneiro Neto, desde agora a Academia Paranaense de Letras passa a ser sua casa, até porque nós o elegemos porque sabíamos, desde sempre, que você era um dos nossos.

Seja bem-vindo.

Muito obrigado.

Acadêmico Ernani Buchmann

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