TEMÍSTOCLES LINHARES UM ACENO À SUA LEMBRANÇA

Ainda recentemente quis rever Temístocles Linhares, mais especialmente sua História do Mate, que é entre nós um dos melhores trabalhos históricos com que contamos sobre o nosso ciclo econômico da erva-mate.  Tem texto amplo e extenso com bibliografia de visão nacional e internacional.

Mas, outros títulos ainda maiores ostentam a memória e o renome de Temístocles, descendente de ervateiros e professor emérito de Literatura Brasileira na UFPR, autor de mais de 20 títulos de obras de reconhecimento internacional. Foi professor em Lisboa e, sobretudo, representa o maior crítico literário da história do Paraná, com   um legado que inclui “História do Romance Brasileiro” (3 volumes), “Diálogos sobre o romance brasileiro” e “Diálogos sobre a poesia brasileira”, para deixar de citar outros tantos títulos de igual nomeada.

Morreu em Montevidéu em 1993 com quase noventa anos sem homenagens; – não esquecido, porém, mas en marge des nouvelles.  Era homem de hábitos discretos, preferia as comemorações em família, como disse dele o jornalista Aramis Millarche. Quando dos seus oitenta anos que passaram sem nem mesmo uma nota de página. Esse retraimento não era resultado de sua ausência no estrangeiro e compromissos com o ensino no exterior, pois lecionou em Coimbra durante apenas 2 anos e outro tempo igual consumiu em estudos na Faculdade de Filosofia de Buenos Aires. Wilson Martins foi bolsista em Paris e viveu 26 anos como professor emérito na New York University, nos Estados Unidos e tantas vezes foi lembrado e celebrado por aqui.

Porém, como professor de literatura e crítico literário, em razão de tantas obras e sua presença constante na imprensa nacional, era comum ser indagado sobre o estado atual das letras paranaenses René Dotti mesmo, quando Secretário da Cultura do Estado, teve oportunidade de convidá-lo a escrever a história da literatura paranaense. Tarefa difícil, por certo, mas infelizmente não fez, procrastinando-a sob a alegação de que a despeito de nossa identidade própria, que nos distingue dos outros, o paranaensismo nativo ainda não se consolidou, para permitir a construção de uma literatura como expressão autêntica da vida paranaense e suas manifestações maiores de vontade, imaginação e até de caráter somos telúricos, dizia ele, pois embora com alto índice de vigor material, ainda nos ocupamos de tarefas obscuras e humildes.

E observava: onde está o nosso grande romancista regional? A erva-mate não o produziu; nem o café ou tampouco a madeira.

Em debate amigo Temístocles fez então despertar a antiga querela de Franklin Távora  e sua versão dos Dois Brasis, para demonstrar que, embora nossa prosperidade, nossa  pujança e desenvolvimento material, tal qual a de São Paulo, caberia ao pobre Nordeste, subdesenvolvido, subnutrido e crestado pela inclemência do sol,  a tarefa de doar a este país, seu maior cabedal de poetas, romancistas, sociólogos, assumindo assim a direção da linha principal do nosso de nossa  representação histórica e cultural,

Diante deste aparente contraste, então, Temístocles se punha de pé e à sombra de nossa tradicional timidez e renegava a influência exclusiva da riqueza e da prosperidade econômica na criação literária, tão de voga na estética marxista.  D’outro lado há de se contar o tempo histórico que ainda nos aparta do resto do país.  Por fim, contamos hoje com uma rica e expressiva literatura de representação histórica, que durante toda a monarquia ostentou a posição de liderança nacional em relação às outras unidades e sua população, conforme demonstrado pelo saudoso confrade Metr. Bacila, em publicação  desta mesma Academia. Entre 1824 e 1900, contando com uma pequena população de pouco mais de 300 mil pessoas, o Paraná tinha 5,5 vezes mais escritores que o resto do país.

No começo do século XX Curitiba se converteu no bastião do movimento simbolista do Brasil. Partiu do Paraná e daqui se distendeu para todo o pais.  Não representou só um movimento de ampliação e renovação das formas poéticas e de pensamento crítico.   Para nós, deu mais vida e organização cultural à cidade. Deu a uma nova e rica geração de vocações literárias. Porém, para Temístocles suas grandes figuras não foram do Paraná. Nem mesmo Emiliano Perneta, nosso príncipe poeta.  Apesar de tudo nosso Emiliano não foi um poeta maior, do tamanho de um Drummond, Fernando Pessoa, ou Rilke.  Para Temístocles, Cruz e Souza sim, teve o espírito mais rico e profundo, igual ao de Alphonsus Guimarães, Augusto dos Anjos e Raul de Leoni.

Mas, o fato é que o movimento simbolista produziu entre nós um rico plantel de talentos genuínos que incluía Dario Veloso,  um simbolista-esoterista e sua Atlântida, a maior epopeia nacional, no dizer de Wilson Martins;; Leôncio Correa, o patriarca da literatura paranaense; ainda a poeta Helena Kolody, a  primeira autora de haikais do Brasil; Nestor Vitor e sua angústia metafísica; o contista Dalton Trevisan, talentoso e enigmático; Paulo Leminski  e seu jeito próprio de fazer poesia, e,  noutra linha posterior  de inspiração,  o londrinense Domingos Pelegrini e o catarinense Gustavo Tezza, mais  tantos outros..

Enfim, voltando ao mate de Temístocles, nosso ciclo ervateiro durou mais de um século e foi o mais duradouro deles. como também o mais autônomo e estável. Foi nossa primeira fonte de riqueza pública e contribuiu para a fixação do imigrante neo-europeu, que acabou se convertendo em ervateiro também, incorporando os hábitos do chimarrão e do churrasco. à moda campeira.  No plano social deu origem a uma burguesia de hábitos aristocráticos vivendo em mansões fidalgas, onde se cultivavam as letras e os dons do espírito, que permitiram ao Paraná marcar presença, e até dividir lideranças, no cenário intelectual do país.

Acadêmico Rui Cavallin Pinto

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