Um jagunço redimido numa terra em transe

A esse tempo eu já vivia em Apucarana há muito tempo. Na ocasião, porém, era promotor da comarca, integrando o Ministério Púbico. Nós do fórum e advogados  aproveitávamos os fins de tarde para um encontro habitual  no centro da cidade. O ponto era o Café do Preto, na esquina da Praça Rui  Barbosa, onde éramos servidos do café do Seu Odílio e Dona Maria  e nos entretínhamos com as novidades e as graças  do dia. Nessa época o Paraná vivia o drama do sudoeste; a insurreição armada dos posseiros de Pato Branco contra as companhias de terras, principalmente da CITLA de Mário Fontana, a Comercial de João Simões e a Apucarana, de que era sócio principal Jorge Amin Maia, prefeito de Apucarana e depois deputado da região. As terras em disputa compunham a chamada Gleba Missões, de cerca 500 mil hectares, que o Estado do Paraná cedeu  à Brazil Railway Company, do grupo norte-americano Grand Trust Farquhar, a troco do pagamento da indenização  das terras devolutas, que completavam o pagamento da  construção da estrada de ferro São Paulo-Rio Grande. A cedência das terras devolutas foi feita pelo Império, nos últimos dias da monarquia. O Estado acabou assumindo a obrigação, mas, ao fim das obras, não tinha como pagá-las, porque grande parte das terras já tinha dono e documento. Foi daí que o Paraná se viu forçado a ceder as Missões, mas contrariando decisão do Supremo Tribunal Federal, que já decidira que essas terras eram de Santa Catarina; embora ambos  os Estados procurassem se compor, por intermediação do governo federal. Como se vê, já na origem o destino das terras não era pacífico e mais se agravou dali em diante, porque o Estado acabou anulando as concessões que fez, alegando fraude e a inexecução das obras. O governo da União ocupou parte da área com a CANGO e passou a fazer o assentamento de milhares de famílias de agricultores migrados do Rio Grande do Sul, em área  indeterminada da Gleba e em parte já ocupada por antigos posseiros. As terras ainda caíram nas mãos de colonizadoras (a CITLA, a Comercial e a Apucarana), que se  atribuíam a propriedade delas e  usavam jagunços e métodos truculentos  para cobrar a venda dos lotes e impor preços escorchantes, – sob pena do posseiro desocupar a terra à bala ou a fogo.  O episódio de mais de 30 anos contou com dezenas de mortes e todo gênero de desordens e violências que incluíam a destruição das moradias e galpões dos colonos, lavouras, animais e até estupro de mulheres.

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Mas, afinal, o propósito deste pano de fundo é para justificar a presença em Apucarana do meu colega e amigo Noel Nascimento, na época candidato a deputado estadual. Noel nunca foi só poeta, como no “Coreto de Papel’ e “Cosmonave”. É historiador social e ensaísta de “A Revolução no Brasil”, “A Nova Estética”, “Novo Período Literário”, a “Escola Humanista” e outras obras de valor literário. Na época  ele concorria com Jorge Maia, que, além da administração municipal, disputava uma cadeira na Assembléia Legislativa. Ora, a violência e os desmandos do sudoeste ganharam repercussão nacional e comoviam o país. A grande imprensa nacional passou a estar presente em tudo. Noel fez, então, destas notícias seu porta-estandarte político. Pendurou um pato branco morto atrás da capota de seu jeep velho e saiu em campanha. Rodava pela cidade e pelas estradas exibindo o pato morto como um símbolo daqueles tempos de  violência e morte. Era uma denúncia e um desafio. Punha sua candidatura na defesa dos posseiros  e exprobrava a conduta das imobiliárias, como a do seu opositor, que povoavam o território de  jagunços e “farrapos”, para assombrar os posseiros e expulsá-los das terras. E assim era, e Noel circulava airosamente com seu carro funerário pela cidade; gesto visto, no entanto, como de notório acinte ao adversário local. Ora, ainda nesse tempo, estávamos todos entretendo-nos no fim da tarde no Bar do Preto:  eu, Noel e amigos, quando Noel me chamou a atenção:-

– Olhe aquele homem de blusão de couro, lá fora… É o Machad1inho. É jagunço da imobiliária Apucarana.  Por certo, veio aqui para me matar. Está parado na esquina, com atenção em nós e a mão enfiada no blusão. Instintivamente, Noel  se pôs atrás de mim e eu fiquei à deriva, tentando me desvencilhar dele e fugir do alcance de um eventual disparo. Soube então que o tal Machadinho era gente  conhecida da terra. Pessoa sem ocupação, mas homem para qualquer serviço. Constava que integrava a turma dos jagunços que, em 14 de setembro de 1957, fora vítima da tocaia dos colonos, no km 17, da estrada de  Capanema a Santo Antonio. Os gerentes das Imobiliárias das imobiliárias haviam agendado para aquela data, um encontro com os colonos-posseiros em Capanema, prometendo estudar uma composição favorável dos preços e das dívidas, capaz de devolver a paz à região. Roídos de ódio e ardidos de vingança, pela morte dos companheiros e a extorsão das terras, os posseiros decidiram armar uma espera da comitiva dos chefões e seus jagunços, num das curvas da estrada. Ocorre que a notícia vazou e o cortejo foi reduzido a uma única caminhonete da CITLA, com o motorista e um jagunço dos mais sanhudos. Assim, como o veículo viajava vazio, foi recolhendo caronas na estrada, porém, a maior parte colonos. Ao vencer a curva, no km 17 receberam então uma saraivada de balas vinda de homens armados atrás de um tronco de peroba. O motorista e o jagunço morreram, e a caminhonete enveredou pelo mato à dentro, desgovernada. Mas, morreram também os colonos; seis deles. Não consta, entretanto, que Machadinho estivesse entre eles, vivo ou morto. Seu nome não aparece na relação que se fez. Ao fim, viveu apenas da fama… Voltando ao episódio do bar, após o alerta e os cuidados diante de sua presença, na verdade, logo após Machadinho desapareceu e a reunião se refez, passado o medo maior. Mais tarde, porém, seguindo de automóvel a serviço, até um distrito vizinho da cidade, me deparei com Machadinho, à pé, na estrada , seguindo o mesmo destino. Fiquei curioso. A função já me habituara a conviver com os fora da lei. Diminui a marcha e perguntei: “Quer carona, companheiro”. Ele fez que sim, agradeceu e se acomodou no carro, conservando a mesma feição sisuda e sem assunto. Fui eu que puxei a conversa:- O companheiro não é o Machadinho, de Marilândia do Sul, perguntei, – quando eu já sabia que era. Ele confirmou e fui mais adiante, para entrar no assunto: “E verdade que você trabalhou para a colonizadora Apucarana, e teve uma emboscada em Pato Branco. Foi ferido?… –  acrescentei com expressão compadecida.  Confirmou com a cabeça, mas disse que antes disso pulou da caminhonete e fugiu pro mato, sem ter sido ferido. Foi então que, sentindo que ganhei autoridade, fiz a última pergunta: “Você foi mesmo jagunço, de arma na mão?… Foi então que ele meteu a mão dentro do blusão de couro e trouxe de lá seu misterioso guardado: um pequeno exemplar da Bíblia, que levantou na mão: “Minha arma, doutor, agora é esta!” E mostrou triunfante o que seria o talismã de sua redenção… Disse isso, e  calamos ambos, no que restou do nosso curto caminho. Enfim, foi o que aconteceu e, se ainda resta  o que dizer: Noel Nascimento perdeu a eleição!…

 Rui Cavallin Pinto

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.

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