UM OLHAR PIEDOSO PARA NOSSA HISTÓRIA

A origem das Academias vem de Platão e de um bosque de oliveiras e plátanos, situado às margens do rio Cefiso, nas vizinhanças de Atenas, propriedade do herói Academos, onde Platão fundou, em 387 a.C, sua escola de filosofia para o convívio com filósofos e o ensino dos seus discípulos.

A denominação e seus propósitos maiores acabaram por se difundir no mundo, conservando, porém, a denominação de accademia, por tradição italiana, mas adotando em 1635 o modelo que o Cardeal Richelieu e o rei francês Luiz XIII, criaram para a Academia da França.  Ela trazia o propósito de unificar a língua francesa, mas, a bem de ver, o que queria era poder conter, sob visão, os arroubos reivindicatórios dos seus intelectuais. O ambiente era modesto, porque no salão só havia uma poltrona (fauteuil); e era do presidente. Os demais membros ocupavam tamboretes (tamburets), até que o acadêmico e cardeal Jean d’Entrées se recusou estar presente à posse do erudito Monnoye sob a alegação de que não sentaria num tamborete, comme um petit peuple, senão nuns fauteuils, a que tinha direito por nobreza.

Sabendo do embaraço, Luiz XIV (agora já é outro rei!) Disse que foi nessa ocasião que as cadeiras da Academia adquiriram a condição de trono imortal (immortalis sella), que até hoje ostentam independente do titular.

Por sua vez, como acontece no mundo, em 20 de agosto de 1897, foi fundada a Academia Brasileira de Letras, adotando o mesmo modelo francês e se propondo à unificação da língua nacional e à promoção de nossa literatura. O exemplo proliferou pelos Estados, com destaque para o Ceará, como primeiro deles (1894), São Paulo, pela projeção que conquistou (1909) e o paranaense, por ser nosso (1936)

Porém, já no século anterior, muitos dos maiores nomes das letras francesas, recusaram o convite para integrarem as Academias, como ocorreu com Stendhal, Flaubert, Baudelaire, Proust ou Gide, porque já se sentiam consagrados pelo público e em condições de dispensar o laurel oficial.  Dali em diante, também, a criação literária passou a sofrer as transformações da vida moderna, com seu pragmatismo e suas facilidades. O computador e a internet hoje comandam a cena, a imagem eletrônica dispensa a palavra escrita e ainda surge o áudio-livro que inaugura o livro sem letras.

E, diante todos esses riscos que ameaçam os livros, é justo que se pergunte que destino eles terão, e com eles, as suas Academias? Há Academias ricas, como a brasileira no Rio de Janeiro, ocupando o Petit Trianon na rua presidente Willson, com uma biblioteca de 100 mil livros, um precioso acervo arquivístico e bibliográfico, além de sua intensa produção literária. Ou a paulista, no Silogeu do largo do Arouche, que ostenta o mesmo rico acervo bibliográfico, devidamente catalogado e aberto à consulta pública. Academias que publicam livros, boletins, promovem cursos e palestras, organizam concursos e, sobretudo revelam novos talentos para o país et si ad mundum.

Por outro lado, embora os nossos estados irmãos tenham suas próprias Arcádias, são elas, na maioria, casas modestas (quando existem), acomodadas com dificuldade e parcos recursos, desprovidas de bibliotecas e o que fazem tem pouca ressonância aqui fora.

Quanto ao confronto entre o livro e essa parafernália eletrônica que o ameaça, Fleury Filho, que é presidente honorário da APL, assegura que a internet e os computadores não são inimigos dos livros ou das academias. Na, verdade. Os livros são mais modernos que os computadores: são recicláveis, não precisam de bateria, são interativos e têm um design perfeito para transportar e usar em todas as ocasiões.

São argumentos válidos, convenhamos, mas construídos com boa dose de amor.

Porém, independentemente do fim antecipado, por que não se antepor á sua previsão, priorizando os temas locais, tanto das letras como da história? Sobretudo desta, em que a proximidade ganha foco maior e um quê a mais de valoração pessoal. A história é em princípio local. Só depois se torna geral e universal. De que vale querer ser original escrevendo sobre Franz Kafka, Knut Hansun, Andre Gide ou Sartre, como fez Cecília Westphalen com o seu Carlos V, de que se redimiu, devotando-se depois à história do Paraná. Há dezenas de milhares de títulos sobre Shakespeare na biblioteca do Congresso Americano.  É devoção prestada pelo patriotismo dos seus conterrâneos e admiradores. O Paraná, porém, já não tem historiadores, Rui Washowski morreu em 2.000. Edilberto Trevisan se despediu quando era o ano de 2.010 e David Carneiro ficou mais atrás, em 1990.

Estamos órfãos de História, mas a casa está cheia de acadêmicos, uma feira de amostra, por que então não pensar em preencher esse vazio? Nossa História é nobre e dotada de imensa riqueza quase inexplorada e, quem for servi-la, mais que o título de membro vitalício, preferido de tantos, há de receber o título eterno de verdadeiro imortal, não só no sentido simbólico que a palavra contém, mas no semântico e mesmo físico, da gratidão dos verdadeiros paranistas. E sendo assim, as Academias também hão de sobreviver…

Acadêmico Rui Cavallin Pinto

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