VALFRIDO PILOTO E A UNIVERSIDADE DO PARANÁ

A maioria dos países europeus já tinha Universidade antes de 1.500, e muitas delas estão em ope-ração até hoje, como a de Bolonha, de 1.088, de Oxford (1.096) ou de Paris (1.170), e tantas mais. Também a América espanhola nos antecedeu, até amplamente, com a Universidade de San Marco (1.551), no Peru, a Universidade Nacional e Autônoma do México, da mesma idade e a Universida-de de Córdoba (1613), na Argentina. Até o fim do século XIX, o Brasil contou apenas com as Facul-dades de Direito de São Paulo e de Pernambuco, ambas criadas por D. Pedro I, em 1827. Na verda-de, durante a Colônia Portugal procurou inibir toda iniciativa econômica e cultural do Brasil, mes-mo com relação a instituições de ensino elementar e a edição e circulação de livros. A Metrópole reproduzia, assim, o modelo mercantilista mais opressor, o que explica nosso retardamento cultu-ral.
Valfrido Piloto, foi um dos optimates da nossa Academia, publicou em 1976 suas notas de imprensa, sob o título “Universidade Federal do Paraná – Primórdios – Modernização – Vitórias”, reunidas num pequeno ensaio histórico sobre nossa Universidade enfrentando os desafios e exal-tando a pertinácia de sua criação e a contribuição que vem prestando à formação profissional e cultural de nossa juventude e, especialmente, ao desenvolvimento da nossa cultura e ciências.
Valfrido pertenceu a destacada família paranaense. Seu pai, funcionário da Rede Ferroviária, foi vitima de assalto e morto em plena via publica, quando transportava valores da receita da com-panhia; o crime ganhou larga repercussão na pacata sociedade curitibana. Deixou, porém, cinco filhos que, ganharam alto destaque na sociedade, nas letras e como profissionais de elevada com-petência. Valfrido foi advogado, Secretário de Estado, jornalista, escritor, poeta e historiador. Poeta estreou com o pseudônimo de Otto di La Nave, da linha antropofágica do modernismo. Foi polígra-fo e produziu cerca de 50 obras, sobretudo de história e literatura paranaense, com traços marcan-tes do seu estilo de combate.
Sua “Universidade do Paraná” constitui um valioso contributo à história de nossa Sedes Sapi-entiae; motivo do nosso orgulho nativo. Foi ao fim do século XIX e nos trouxe a recordação da pre-sunção do jovem Rocha Pombo de fundar uma Universidade numa acanhada cidade de 20 mil habitantes, tentando vencer seu tempo e o próprio meio. Ruy Washowski viu dificuldades no seu temperamento que se irritava ao menor propósito criando inimigos numa obra que reclamava o maior apoio. Também se diz que a Revolução Federalista também ajudou a frustrar seu projeto universitário.
Porém, quase 20 anos depois (1911), o Decreto 8.659 (Rivadávia Correia) desoficializou o en-sino superior, que perdeu seu status oficial, para se compor de entidades cooperativas autônomas. Embora essa lei tenha levado a muitos abusos, próprios do ensino livre, favoreceu a criação da nos-sa Universidade, frente a demanda crescente, criada pelo surto de progresso do Estado e a vinda dos contingentes imigratórios. A esse tempo Victor do Amaral estimou que o Paraná contava com a presença de só 9 médicos e 4 engenheiros, filhos do Estado.
Então, foi assim que, em 1912, a Universidade foi fundada ex abrupto, por iniciativa de Vitor do Amaral, Nilo Cairo, Fernando Pinheiro, Pânphilo de Assunção e se viu instalada no centro da ci-dade: Vitor do Amaral reitor, Nilo Cairo secretário.
As aulas tiveram início em 1914 com 26 professores e 97 alunos. Entretanto, com a eclosão da Guerra Mundial as dificuldades se multiplicaram, exigindo recursos de particulares e professo-res que, a exemplo de Petit Carneiro e outros, se entregaram a uma verdadeira ginástica “aular”, para suprir os horários, à falta de docentes e poupar despesas.
Instalada a Universidade, 3 anos depois (1915) surgiu a Reforma Carlos Cavalcanti que reofi-cializou o ensino superior e estabeleceu que só uma cidade de 100 mil habitantes podia instalar uma Universidade. O impasse só foi vencido em 1919, com o expediente (tido como estratégico) de reformular seus estatutos e separar as faculdades em instituições isoladas, cada uma com autono-mia didática própria, subordinadas, porém, a uma direção superior.
Depois disso, a Universidade só voltaria a ser restaurada em 1º de abril de 1.946 e, federali-zada em 04 de dezembro de 1950, pela Lei n. 1.254, se viu transformada em autarquia de regime especial, com autonomia administrativa, financeira, didática e disciplinar, mantida pelo governo federal.
Mas, o que tem de mais valioso e inédito no trabalho de Valfrido é a resenha do período, re-lativamente a algumas das diferentes atividades e cursos, revelando a extensão e a qualidade de sua contribuição para os valores do conhecimento e do saber humano em geral; e, de nossa parte, por abrir, também, em nosso Estado, um amplo espaço regional para seu desenvolvimento, pesqui-sa e formação cultural superior das novas gerações.
Já nesse tempo, passados mais de 60 anos da fundação e 25 da federalização, a Universidade Federal se revelava um verdadeiro centro internacional de vida universitária, consagrada à pesqui-sa e ao trabalho científico e cultural de alto nível. Ao lado do curso de Engenharia Civil surgiu o de Engenharia Mecânica, Eletricista, Arquitetura e Urbanismo, transferidos para o Centro Politécnico, numa área de 700 mil m2, com diversas edificações próprias dos cursos, muitas delas prontas e outras em obras. Outro aspecto que o livro destaca é a contribuição da Universidade para o desen-volvimento das Ciências Agrárias, responsável por fazer do Curso de Engenharia Florestal o maior e mais perfeito Centro de Ensino e Pesquisas Florestais do país.
Enfim, dentro dos estritos limites deste trabalho não podemos avançar além de uns poucos anúncios. Só o livro, enfim, satisfaz. Embora isso, não resistimos, porém, a oportunidade de regis-trar nossa homenagem à realização do Símpósio Internacional sobre o Quaternário, realizado pela Universidade do Paraná, em julho de 1975, em Curitiba, congregando 80 profissionais, de 17 paí-ses, que contou com a coordenação do nosso saudoso colega acadêmico João José Bigarella e sua esposa Iris, a quem coube fazer a saudação aos participantes (em inglês), além da defesa de quatro teses sobre o tema comum.
O que mais se possa saber e dizer, está no livro…

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