VISÃO DO PARAÍSO

No segundo quartel do século XIX, os agentes do serviço de emigração do Estado fizeram difundir entre os camponeses do Leste da Europa, a lenda de que o paraíso terrestre estava situado no Sul do Brasil e nele corria o leite e o mel. E essas terras estavam no Paraná, mas eram mantidas ocultas porque a Virgem Maria a conservava coberta com uma densa névoa.

Um dia, porém, a mãe de Deus ficou compadecida com as condições de pobreza e abandono em que vivia a gente daqueles confins do continente europeu e dispersou a névoa e ofereceu a terra a quem as quisesse cultivar.

A lenda ganhou tamanha credibilidade entre aquele povo simples que, conta a tradição, muitos deles só aceitavam emigrar se fosse para o Paraná e, ainda outros ficaram tão confiados de serem levados ao paraíso que chegavam a se deitar no leito da ferrovia, para impedir que a composição seguisse para outro destino, que não o Paraná.

A fábula do paraíso bíblico não serviu apenas para atrair colonos europeus, porque aqui mesmo os naturais da terra já cultuavam a versão do Paiquerê, representante do Éden terrestre, formado pelos campos férteis e sempre verdes de Guarapuava e dos vales do Ivaí, Piquiri   e Iguaçu, onde o povo, livre da cobiça e das disputas humanas, viviam livres e felizes, sem maiores cuidados.

Entretanto, embora hoje em dia já não prevaleça da utopia dos jardins das delícias por essas paragens, austrais, há, porém, muitas razões para nos ufanarmos de que o Paraná é uma dádiva da natureza, assentado sobre uma área de planalto de clima temperado, possui terras férteis, ares sadios, fartura de águas e com chuva regulares, constitui, na verdade, um espaço privilegiado e vocacionado à presença humana e à construção de uma sociedade próspera e sadia.

Assim, se atentarmos para o planisfério terrestre e seguirmos o caminho dos mesmos graus de latitude sul ocupados por nosso Estado, vamos nos surpreender, certamente, com os dotes com que nos privilegiou a natureza, em contrapartida com as demais regiões que se sucedem de um lado e outro, dentro dos mesmos paralelos.

Assim, se nossos olhos se estenderem para nosso vizinho a oeste do mesmo continente, vamos nos defrontar, primeiro, com a região do Chaco paraguaio, e, mais adiante com o deserto de Atacama, no Chile. O Chaco corresponde a uma ampla planície que se estende por quatro países: Paraguai, Bolívia Argentina e o próprio Brasil, e se caracteriza por ser uma região tão árida e deserta que sua população não passa de 3% dos habitantes do país. Disse Gary Lyle que essa parte do Chaco é “just a desert – not a green leaf, never a drop of rain… A outra parte é uma planície inundável, constituída de terras alagadas impróprias para a agricultura e de outras atividades produtivas e a própria sobrevivência humana.

O Atacama, por sua vez é um deserto com 180 mil km² e hum mil quilômetros de extensão, o mais alto e mais árido deserto do mundo. Agora, se atravessarmos o oceano Atlântico, seguindo pelos mesmos paralelos vamos topar com o território da Naníbia, no Sudeste da África. O primeiro deserto é o do litoral seguido do Kalahari, no interior, os dois com mais de hum mil quilômetros quadrados. Seguindo ainda o mesmo percurso, vencemos a África e alcançamos o continente da Austrália, onde recaímos no Deserto Central da Austrália, com mais de hum milhão e meio de quilômetros quadrados de extensão.

Assim, se é verdade que não herdamos o paraíso das mãos de Deus, em compensação a natureza nos galardoou com tantas belezas e benefícios, que somos levados a crer que a vontade divina é a de que nós mesmos devíamos criar aqui o paraíso terreal, à nossa imagem e semelhança, mas guardando a visão nativa do Paiquerê dos cainganges, como imagem de paz e de confraternização humana, igual a que Romário Martins viu e exaltou na sociedade indígena e dela se serviu para compor seu movimento paranista.

O paranismo constituiu, certamente, o mais importante movimento lírico-nativista da nossa formação histórica e a mais bela página da consciência nativa paranaense.

Talvez ele hoje represente um tempo já transposto, em confronto com uma nova realidade. Já não se fala dele porque vivemos outras visões e motivações mais recentes, tanto no Paraná como no mundo. E se diz hoje que é tempo de globalização, em que, de início, as nacionalidades e os sentimentos locais passam por um processo de desintegração.

Mesmo assim, porém, penso que ainda podemos salvar parte da visão paradisíaca contida na mensagem paranista de Romário Martins, considerando que somos uma sociedade heterogênea e de tantas raízes, que pode fundir num só corpo a eugenia de todas as raças que o adotaram, para construir uma sociedade que reúna nossas riquezas naturais, nossos valores culturais e a beleza de nossa gente, e seja capaz de levar o Paraná à altura de sua grandeza e do seu merecimento e, do nosso orgulho paranaense.

Foi este, com certeza o sonho paradisíaco de Romário Martins, que ainda povoa o imaginário de todos nós.

Acadêmico Rui Cavallin Pinto