WILSON MARTINS ERA UM “BRAZILIANIST”?

O poeta inglês Robert Southey publicou em Londres, durante os anos 1810-19, a primeira História do Brasil, em 3 volumes. E é um registro histórico que ainda permanece como um dos mais completos do nosso passado colonial. John Armitage, também inglês, fez sua História do Brasil, em 1837, ao ensejo da chegada da família real portuguesa no Brasil, em 1808.

Depois disso foi criado o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, em outubro de 1838, reunindo em assembleia, numa da salas do Museu Nacional, personalidades representativas da vida política e social do Rio de Janeiro, com objetivo de fundar um instituto de estudos históricos geográficos do pais e  promover a historiografia nacional, para, na frase patriótica do cônego Januário da Cunha Barbosa, secretario da casa,  “não deixar mais ao gênio criativo dos estrangeiros a tarefa de escrever nossa história.”

Na verdade, já havia então a História do Brasil do Frei Vicente Salvador (1614), reputada a primeira obra nacional, porque oferecia uma história geral do Brasil do seu tempo e o muito que conseguiu recolher e sistematizar do período colonial. Depois disso outras obras mais viriam, com forro mais amplo e diverso, procurando traçar o retrato mais completo do nosso pais, com todos seus perfis e performances.

O país é um continente multifário. Multicultural racial e étnico. Rico de ecossistemas.  Isso tudo atraia a atenção do mundo e o interesse do estrangeiro por conhecê-lo melhor.

Em meados do século XVII Nassau trouxe para o Nordeste os artistas holandeses, geógrafos e naturalistas, que deixaram uma galeria de arte. Em 1816, após a queda de Napoleão, aportam no Rio os artistas e artífices franceses da Missão Cultural Francesa, incluindo o escultor Auguste-Marie Taunay e o pintor Debret e outros, incumbidos de retratar os personagens da Corte e estruturar uma escola de arte, do que resultou a Academia Imperial de Artes, depois Academia Nacional.

O século XIX trouxe o sábio botânico Saint Hilaire, além de Pohl, von Spix e Martius, que compuseram a comitiva da princesa Leopoldina, irmã de Isabel

E vale lembrar também a presença dos viajantes e exploradores solitários Luccock e o mineralogista Mauwe, talvez o primeiro dos “brasilianists”.

Em 1934 contamos ainda com a presença dos franceses, Braudel e Lévi-Strauss, para a fundação da Universidade de São Paulo, e, com eles, seus compatriotas e historiadores Morazé, Dion, Mauro, e outros mais.

O Brasil despertava então a curiosidade do mundo, mas dentre todos, o maior e o mais recente contingente eram de norte-americanos, a contar de 1960. Daí a designação inglesa de “brasilianists”, compreendendo pesquisadores e acadêmicos de a nacionalidade.

Foi porem a erupção da revolução de Cuba e a política da Guerra-Fria que despertou a curiosidade e a prevenção dos intelectuais e do governo americano, diante do risco da expansão do castrismo pela América Latina, sobretudo em relação ao Brasil, pela posição de preponderância que o país ocupa no continente.

E vieram “brasilianists” em quantidade, provindos das melhores Universidades americanas e providos de generosos recursos de instituições acadêmicas e do próprio governo, para a realização de pesquisas e bolsas de pós-doutorado.

E, como era natural, provocaram reações de todo gênero, sobretudo entre os nossos radicais. Para eles eram todos “ filhos de Castro” ou então agentes da CIA, com acesso privilegiado aos documentos e arquivos oficiais da repressão. Houve também reações contrárias, como ocorreu com Roett, Werner Baer e um cubano americano. Não foram torturados, mas disseram ter sofrido maus-tratos. Thomaz Skidmore, o autor de “Brasil: de Castelo as Trancredo”, foi levado à Política Federal e ameaçado de expulsão do país. Lula revogou o visto do correspondente do ”New York Times” no Brasil e expulsou Lary Rohter, editor do Times”.

Depois dos anos 80 a “Colônia brasilianist” diminuiu muito e foi assumida pelos próprios brasileiros que passaram a completar sua educação em estágios no estrangeiro e a escrever teses nas universidades americanas e europeias, multiplicando as publicações voltadas para nosso país. Mas, ainda hoje existem associações de brasilianistas nos Estados Unidos e no Brasil; lá com mais de 1.300 integrantes.

Não faz muito José Carlas Meihy, professor de história do USP, fez seguidas viagens pelos Campi americanos e gravou 60 entrevistas com três gerações de “brasilianists”, que reproduz no seu “A Colônia Brasilianista”, um livro de 500 páginas, da Nova Estrela. O curioso é que entre todos os americanos o autor fez incluir Wilson Martins, um único brasileiro, tratado como “brasilianist”.

Wilson era então professor de literatura brasileira da Universidade de Nova York desde 1965, como fora antes das de Kansas e Wisconsin e fazia crítica literária no jornal O Estado de São Paulo, substituindo Paulo Milliet, além do Jornal do Brasil e Jornal da Tarde, de São Paulo. No Paraná continuava a ser titular de Literatura Francesa na Universidade local.  Não se tinha na conta de “brasilianist” por razão semântica e por ser brasileiro. Do ponto de vista americano, sim, para significar todos os estrangeiros que se especializaram em Brasil.

Foi, por certo, o maior crítico literário do Brasil e os sete volumes da sua História da Inteligência Brasileira dizem isso, embora a crítica seja hoje uma atividade que já não tenha quem promova. Mas, ele foi, sobretudo, crítico literário. Essa sua definição vital. Temido por muitos, foi exaltado, porém, pelos que conheceram seu esmero e seu escrúpulo intelectual. Foi crítico de ideias próprias. Sua crítica envolvia todo o contexto do autor e da obra, seu tempo e espaço. Para ele o autor nunca era o mesmo a cada obra, porque incorporava tudo do seu tempo histórico. Mas, sua contribuição não ficou só aí, deu a seu estado de adoção uma interpretação que foi além da identidade luso-cultural que Cecília Westephalen viu no modelo de Gilberto Freie, porque introduziu no seu “Brasil Diferente” um elemento novo, com o qual o mestre de Apicaço não podia contar: o imigrante.

Brasileiro ou “brasilianist”, Wilson Martins tem direito a ambos os títulos. Porque serviu aos dois; mas fez isso só para servir melhor sua origem e seu destino.

Acadêmico Rui Cavallin Pinto

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